A declaração de Alexandre de Moraes sobre cassar candidatos que usarem inteligência artificial para “anabolizar” desinformação soa, à primeira vista, como defesa da democracia.
Mas, olhando de perto, revela um problema grave: quem define o que é fake news e o que é crítica legítima?
O ministro trata a IA como vilã automática e propõe a punição mais dura possível, a perda do mandato como se fosse a única saída.
Só que isso abre espaço perigoso.
Em um país onde o próprio Judiciário já concentra poder excessivo sobre as redes e as eleições, entregar a um juiz a chave para decidir o que é mentira “anabolizada” e o que é opinião política é arriscado demais.
Multa leve pode ser insuficiente, de fato.
Porém, cassação na véspera do pleito, sem tempo real de defesa ampla, cheira a arma política.
O exemplo da Argentina que ele citou é real, mas extrapolar isso para ameaçar todo mundo que usar IA em campanha cria um clima de medo.
Candidatos vão pensar duas vezes antes de produzir qualquer conteúdo mais ousado, mesmo verdadeiro.
No fundo, a fala de Moraes reforça a ideia de que a Justiça Eleitoral (e o STF) deve ser o grande fiscal e juiz absoluto do debate público.
Isso não fortalece a democracia: enfraquece.
Democracia de verdade exige que o eleitor tenha acesso a tudo, inclusive às mentiras — e decida sozinho.
Quando um ministro ameaça cassar quem “desinforma”, o risco de censura seletiva cresce.
E, como sempre, quem define a linha entre verdade e mentira costuma ser quem já está no poder.
